o não gozo da contemporaneidade e as múltiplas possibilidades de acoplamento

atentem para o retrato do que somos:

vejam, se antes o sujeito era o resultado de duras regras e experimentava apenas duas possibilidades, o certo e o errado, o gozar no acerto ou o gozar na transgressão, os tempos do hoje nos ensinaram que a simples dupla de escolhas se tornou um legado cultural que agora é uma dissonância com o nosso tempo.

explico.

não há mais certo ou errado, tudo é ajustável e, de alguma forma, aceitável, nos moldamos aos desejos da vida, das redes sociais, da comunicação instantânea e das relações fundadas, muitas vezes, no efêmero.

o mundo se criou outro.

agora, as possibilidades de acoplar-se ao desejo são múltiplas – e tentadoras – e nos levam às inúmeras experienciações e ao raso das relações.

nossos valores e nossas verdades se dissolvem a cada dia e se reconfiguram, recristalizam-se em múltiplas formas, o que pode causar estranhamento mas, ao mesmo tempo, nos seduz para seguirmos.

e isso é errado? não. e é certo? tão pouco. o que ocorre, então? o não gozo.

não se goza, no sentido de satisfação, quando não há um ponto final no desejar. isso nos leva à agonia de nunca sabermos onde tudo acabará e se podemos aguentar a experiência do acoplamento múltiplo. e está tudo bem. é o preço que pagamos por vivermos uma vida de prazer e diversidade de escolhas.