o que a morte significa para você?

é da natureza da consciência a contestação a respeito da existência e da permanência. acordar do pleno sono pensando na finitude ou mesmo se dar conta ao longo da jornada diária do quando existimos apenas por um piscar de olhos da história nos faz vulneráveis a um extremo que – muitas vezes – não somos capazes de suportar.

as incertezas a respeito da morte, mesmo para quem achar ter as respostas, e em frente à perda diária e crescente de pessoas, nos cria uma angústia adicional às angústias que já tínhamos, nos faz achar que a vida não dará tempo para nossos planos e que nossas conquistas, se existirem, não ficarão à posteridade.

nesse caldo de pensamentos vivemos e adoecemos.

aprendemos na pandemia, assim como muitos aprenderam nas guerras, a seguir vivendo mentalmente doentes, sobre os escombros e sobre as vítimas, a pensar que estar vivo ou morto é apenas uma questão de sorte ou azar e a conviver com números que, há alguns meses, seriam assustadores ou mesmo um pesadelo.

ressignificamos nossos infernos com tamanha desenvoltura e ajustamos nossa régua do terror para continuarmos vivendo como podemos: é a adaptabilidade.

a sensação é de sublimação

mas, se sairmos vivos, não vamos sair ilesos: nossa existência adoeceu ainda mais e nossas questões fundamentais continuam existindo, só que de forma mais potente. se antes esperávamos o abate natural de nossa permanência e nos apegávamos à respostas que julgávamos suficientes, hoje nos vemos mais próximos de algo desconhecido e nossa naturalidade é, bem verdade, o medo.

literatura: Cortázar pra quem não leu

não se aventure em Cortázar. 

é minha dica. 

não o leia, não o dê audiência. mas, se der, saiba de sua fraude como escritor, como contista e como pessoa.

nasceu na Bélgica, cresceu na Argentina, morreu na França. teve uma vida dedicada a assombrar a todos com suas sombras e a escrever sobre nossos medos e sobre tudo aquilo que desejamos. 

nos fez de bobos, nos apelidou – e a tantos – de cronópios e infantilizou nossos sentimentos. 

sua obra mais consagrada – o jogo da amarelinha – permite-nos muitas interpretações sobre algo até então simples, nos gera inconsistências, nos tira o chão, nos mata. 

tem um livro, o final do jogo, em que nos induz a uma armadilha, um beco, onde o primeiro conto é bobo, uma ratoeira, e as narrativas são como serpentes a nos enrolar e nos apertar até o fim do ar.

mas eu quero pedir distância justamente de um livro, “volta ao dia em 80 mundos”, especialmente ao tomo II.

um daqueles livros de banca, barato, pequeno, inofensivo aos olhos, que compramos para folhear num café ou num vagão qualquer de trem, para passar o tempo, ou para presentear alguém com carinho.

ao contrário de outros livros, aqui Cortázar faz questão de nos mandar embora no primeiro texto, citando dezenas de nomes e coisas para nos espantar. 

se persistirmos, então ele nos afunda de vez em algo que seria conto se não fosse cotidiano ou seria crônica se não fosse absurdo. 

as crônicas de uma vida absurdo, ou os contos de um sonho cotidiano.

em um dos textos – o que mais odiei, confesso – Louis Armstrong é o principal personagem, com seu sorriso. noutro, Thelonious Monk toca seu piano em uma espelunca belga. 

em todo livro, Cortázar nos mostra o quanto é importante sermos nós mesmos e nos leva a achar que podemos confrontar a realidade das coisas, sermos esquizofrênicos consentidos, assumir o que somos num mundo posto. 

ele nos afunda na dúvida, nos ativa à loucura e – inclusive – em um dos textos, nos convida a sermos

idiotas, a nos maravilhar com a vida, com a noite, com os risos. 

um livro arriscado, perigoso. Como toda a sua obra.

se vale uma dica, uma sugestão, ou mesmo um conselho, recomendo distância desses livro e qualquer outro fragmento deste tal escritor de bestiários, um transgressor, alguém ruim ao mundo posto, pois nele passou e deixou uma fissura, uma fresta, uma oportunidade de vermos além do óbvio. 

sonho e desejo?

peço licença para apresentar, com direito à simplificação, um grifo meu sobre os sonhos

eis então: no clássico, “a interpretação dos sonhos”, sigmund freud, há uma significância passível de entendimento e, por uma investigação e presença de elementos suficientes, podemos chegarmos às bases do sonhado. reside então a importância de analisar.

a fragmentação das imagens nos sonhos é o resultado de um processo de desejo (repreendido e reeditado numa forma pouco confusa – se comparada à realidade concreta – mas aceitável a quem sonha (ou quem deseja) – e possível em um ambiente onírico. são os conteúdos ou pensamentos latentes.

o que chamo aqui de repreensão do pensamento (ou desejo) pode ser entendido como aquilo que não fazemos – seja pela cultura em que estamos inseridos ou por valores nossos ou mesmo medos sociais – mas faríamos se nada nos contivesse. aí, no sonho, o desejo se descarrega, se alivia, se concretiza. de modo ameno. e a vida segue.