Significantes: 4 pontos importantes na sistematização psicanalítica das singularidades

Nesse pequeno ensaio, busco abordar – de forma não necessariamente conectada, apesar de serem – quatro pontos de discussão, que exigem aprofundamentos de leitura e clínica, além de momentos de abstração e reflexão: morte e sonho, escuro e silêncios fundantes.

Nos dois últimos, peço licença para tatear a interface entre a psicanálise e a arte, em especial a dramaturgia, a partir de grifos e percepções por hora aparentemente difusas, mas em construção teórica e prática.

O que a morte significa para você?

É da natureza da consciência a contestação a respeito da existência e da permanência.

Acordar do pleno sono pensando na finitude ou mesmo se dar conta ao longo da jornada diária do quando existimos apenas por um piscar de olhos da história, nos faz vulneráveis a um extremo que – muitas vezes – não somos capazes de suportar.

E isso é mais normal do que imaginamos.

As incertezas a respeito da morte, mesmo para quem achar ter as respostas, e em frente à perda diária e crescente de pessoas, nos cria uma angústia adicional às angústias que já tínhamos, nos faz achar que a vida não dará tempo para nossos planos e que nossas conquistas, se existirem, não ficarão à posteridade.

O passar dos anos, caminhando para o fim, e fenômenos sociais e sanitários como a pandemia, trazem a morte para nosso campo de convivência, para nossas conversas, para nossas decisões pessoais, familiares e profissionais.
Se antes vivíamos como se fôssemos infinitos, sendo finitos, logo podemos ter medo e até desistir de viver.

Aprendemos na pandemia, assim como muitos aprenderam nas guerras, a seguir vivendo mentalmente doentes, sobre os escombros e sobre as vítimas, a pensar que estar vivo ou morto é apenas uma questão de sorte ou azar e a conviver com números que, há alguns meses, seriam assustadores ou mesmo um pesadelo.

Nesse caldo de pensamentos vivemos e adoecemos.

Resinificamos nossos infernos com tamanha desenvoltura e ajustamos nossa régua do terror para continuarmos vivendo como podemos: é a adaptabilidade.

A sensação é de sublimação

Mas, se sairmos vivos, não vamos sair ilesos: nossa existência adoeceu ainda mais e nossas questões fundamentais continuam existindo, só que de forma mais potente. Se antes esperávamos o abate natural de nossa permanência e nos apegávamos às respostas que julgávamos suficientes, hoje nos vemos mais próximos de algo desconhecido e nossa naturalidade é, bem verdade, o medo.

Sonho e desejo?

Nesse segundo ponto, peço licença para apresentar, com direito à simplificação, um grifo meu sobre os sonhos.

Eis então: no clássico, “a interpretação dos sonhos”, Sigmund Freud, há uma significância passível de entendimento e, por uma investigação e presença de elementos suficientes, podemos chegarmos às bases do sonhado. Reside então a importância de analisar.

A fragmentação das imagens nos sonhos é o resultado de um processo de desejo (repreendido e reeditado numa forma pouco confusa – se comparada à realidade concreta – mas aceitável a quem sonha (ou quem deseja) – e possível em um ambiente onírico.

São os conteúdos ou pensamentos latentes.

O que chamo aqui de repreensão do pensamento (ou desejo) pode ser entendido como aquilo que não fazemos – seja pela cultura em que estamos inseridos ou por valores nossos ou mesmo medos sociais – mas faríamos se nada nos contivesse. Aí, no sonho, o desejo se descarrega, se alivia, se concretiza. De modo ameno. E a vida segue.
Para Lacan, outro nome consistente, o sonho não introduz uma experiência da ordem mística, longe disso, mas uma vivência simbólica, mas inadequada ao real, uma linguagem outra, do campo ficcional, mas um ambiente poderoso para a psicanálise pois pode desvelar o ressurgimento – ou a repetição – do trauma.

Algumas considerações da interface arte-psicanálise

Escuridão

Vem da arte, do teatro, algumas contribuições mais importantes sobre o papel do escuro na percepção de sensações e no acesso a conteúdo não exteriorizado – inconsciente. Os sonhos – em geral – vem à tona da pele no escuro. A morte é considerada a escuridão profunda, final. Assim, o termo, e a vivência da escuridão podem ser importantes para instaurar instantes de busca pelo inconsciente e suas proximidades, colocando à tona traumas e permitindo as repetições.

Silêncios fundantes

No best seller Silêncio (na era do ruído), o explorador norueguês Erling Kagge tenta fundamentar – a partir de sua experiência – a importância do silêncio em processos de compreensão de questões ditas “profundas”.

No entanto, creio ser o silêncio um elemento fundador na análise, permitindo que, sendo seguido pela fala e pela articulação da linguagem, a exposição do que a de ser analisado.

Ambos, escuridão e silêncios, são ferramentas muito conhecidas por artistas modernos e contemporâneos na busca pela construção de ambientes hostis à sensação de calma. São técnicas de aprofundamento da sensação de fragilidade e exposição de vulnerabilidades dos espectadores e, interessantemente, atraentes, uma vez eles, o público, tal qual os analisandos, em geral, sempre retornam.