o que a morte significa para você?

é da natureza da consciência a contestação a respeito da existência e da permanência. acordar do pleno sono pensando na finitude ou mesmo se dar conta ao longo da jornada diária do quando existimos apenas por um piscar de olhos da história nos faz vulneráveis a um extremo que – muitas vezes – não somos capazes de suportar.

as incertezas a respeito da morte, mesmo para quem achar ter as respostas, e em frente à perda diária e crescente de pessoas, nos cria uma angústia adicional às angústias que já tínhamos, nos faz achar que a vida não dará tempo para nossos planos e que nossas conquistas, se existirem, não ficarão à posteridade.

nesse caldo de pensamentos vivemos e adoecemos.

aprendemos na pandemia, assim como muitos aprenderam nas guerras, a seguir vivendo mentalmente doentes, sobre os escombros e sobre as vítimas, a pensar que estar vivo ou morto é apenas uma questão de sorte ou azar e a conviver com números que, há alguns meses, seriam assustadores ou mesmo um pesadelo.

ressignificamos nossos infernos com tamanha desenvoltura e ajustamos nossa régua do terror para continuarmos vivendo como podemos: é a adaptabilidade.

a sensação é de sublimação

mas, se sairmos vivos, não vamos sair ilesos: nossa existência adoeceu ainda mais e nossas questões fundamentais continuam existindo, só que de forma mais potente. se antes esperávamos o abate natural de nossa permanência e nos apegávamos à respostas que julgávamos suficientes, hoje nos vemos mais próximos de algo desconhecido e nossa naturalidade é, bem verdade, o medo.